Instituto Jonia Ranali

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sábado, 28 de abril de 2012

“Decifrem-me ou eu os mato”

Rio de Janeiro – Realengo – Wellington – A Psicanálise explica!
Estamos de luto interno pela morte de 12 adolescentes, com idades entre 12 e 15 anos, em Realengo, no Rio de Janeiro.
E todos nós nos perguntamos: “Mas porque?”

A ciência Psicanálise, nova ainda no mundo, nos explica o que vai “na alma”, no emocional de um rapaz de 23 anos para cometer uma barbárie desse tipo.
O que ele sabe, ou não sabe, e só sente inconscientemente é que detesta crianças e adolescentes. “Mas, Deus meu, por quê?” todos perguntam. Não existe coisa mais linda e fofa do que esses tesouros. Mesmo que dêem bastante trabalho aos pais, professores, amigos, colegas e vizinhos.
Ele, Wellington, quer uma resposta para o fato de existirem crianças e adolescentes felizes que tem bons pais ou simplesmente por elas existirem. Ele quer ser único. E como as crianças não sabem lhe dar essa resposta e ele também não pergunta, ele as mata.

Sabem qual o motivo? É simples: todos nós desejamos não ter irmãos, precisamos (emocionalmente) que toda a atenção dos pais esteja para nós voltada. Nada disso tem a ver com a realidade dele, mas somente dentro de seu psiquismo isso se passa. E como ele resolve? Matando alguns deles, como se dessa forma pudesse acabar com crianças e adolescentes e ser o único, o preferido por todos, o reizinho, repito.
Todos nós, no nosso emocional, somos assassinos em potencial por esse motivo. Mas, nossa agressividade está contida pela educação, por nosso superego, por motivos religiosos, e assim por diante.

Mas, de repente quando aflora, como no caso desse rapaz, podemos, e foi o que ele fez, cometer o que chamamos de “chacina familiar”, isto é, matar muitas pessoas que representam psiquicamente a nossa família, ou até a própria família, como aconteceu com Suzane, com aquele rapaz de Batatais, Carlos Faccion com só 24 anos, com a pequena Isabela Nardoni; tem tão pouco tempo, o rapaz que entrou no cinema atirando atabalhoadamente e assim por diante.
Periodicamente temos um desses delinquentes tendo um “surto” e colocando a destrutividade toda para fora, no seu grau mais intenso e brutal.

Também para mim dói.

As pessoas são solitárias porque constroem paredes em vez de pontes

Confira este e outros pensamentos que marcaram a história de sua época e colocaram seus autores no hall da fama!

“As pessoas são solitárias porque constroem paredes em vez de pontes.”
Joseph F. Newton

“Juntamente com as exigências da vida, é o amor o que sempre educa.”
Sigmund Freud

“O conceito de cura dentro do processo psicanalítico veio se modificando e se ampliando de tal modo que hoje não é mais uma terapia indicada para personalidades patológicas ou desajustadas, mas capaz de beneficiar a todos os tipos de pessoas, especialmente as que trabalham em atividades assistenciais, psicológicas e sociais.”
Osvaldo Hamilton Tavares – Procurador de Justiça

“A depressão, como qualquer outra manifestação neurótica, diminui a sensação de energia e virilidade.”
Sigmund Freud

“O rio atinge seus objetivos porque aprendeu a contornar obstáculos”. 
Lao Tse

“Não leve a vida tão a sério, você não vai sair vivo dela”.

Um homem muito rico foi visitar uma ilha onde uma freira trabalhava como voluntária com leprosos. Ele viu aquele quadro e disse para a freira que não faria aquele trabalho por nenhum dinheiro do mundo. Ela olhou para o ricaço e disse: “Eu também não”. Ela era uma voluntária.

“A imaginação é o único motor que Deus deu ao homem. O sonho é realidade para os realizadores”.
Henry Ford

“Antes de desistir, consulte um perito”.
Napoleon Hill

“Toda a realização, toda a riqueza ganha, tem seu início numa ideia”.
Napoleon Hill

“Uma flor que nasce na adversidade é a mais bela de todas.”
Autor desconhecido

“Guardar ressentimentos é como tomar veneno e esperar que outra pessoa morra”.
William Shakespeare

Realengo traz Suzane Richthofen de volta

Pois é, infelizmente essas coisas acontecem muito comumente: Wellington, Realengo, assassinato de doze crianças, Suzane, morte dos pais dela. E, muitas pessoas tem perguntado sobre Suzane e fazendo comparações: Wellington pelo menos assumiu tudo o que fez, deixou documentos explicativos, e Suzane? Ela foi uma das autoras do assassinato de seus pais, com apenas 19 anos. Não é tão incomum como muitos imaginam coisas desse tipo acontecerem.

Os jovens não sabem, emocionalmente, lidar com os limites e com as frustrações. É uma situação em que a pessoa é dominada pelos seus desejos, e a sociedade que estimula a satisfação imediata das satisfações é sua parceira. Vivemos para satisfazer nossos desejos. É consumismo material e psíquico.

Suzane disse que ajudada pelo namorado, matou por amor, pois os pais não gostavam do namorado desta e eram contra a relação de ambos. E, a jovem não sabendo se saindo de casa conseguiria ter o mesmo padrão de vida, resolveu assassinar os pais. É sempre a imaturidade emocional, que faz com que moças-mulheres façam birra como crianças que querem, por que querem um brinquedo, sem saberem se os pais o podem dá-lo. Esses jovens agem com a irresponsabilidade de uma criança, mas com o cérebro de um adulto e toda a falta de indulgência destes.

Na atualidade temos nos defrontado com a dificuldade dos professores de colocarem limites nas suas aulas, com a arrogância e com o desrespeito dos jovens, uso de drogas, álcool. E, em reuniões de escola percebe-se esse padrão: os pais acham que a escola é que tem que fazer o papel da educação e não eles. Esses pais também não amadureceram, pois como psicanalista posso lhes garantir que sem um tratamento psicanalítico, as pessoas não amadurecem mais do que cinco anos de idade, no máximo.

E, crianças e adolescentes ficam “órfãos de educação e de bom senso”, e Suzane não soube aguentar a intolerância de frustrações e limites. Teria sido melhor se Suzane saísse de casa, enfrentando a vida com todos os limites que esta nova situação lhe imporia. Estaria crescendo e se enriquecendo por dentro. Ou aceito o que seus pais diziam e ter analisado melhor a situação. Ela age como uma criança indefesa ao precisar da aprovação dos pais e como adulta impiedosa ao planejar o assassinato.

É uma pena que os pais não saibam lidar com determinadas situações: por vezes não conseguem “mesmo”, mas boas conversas, muito carinho, muito conhecimento do emocional, a procura de ajuda com especialistas, faz toda a diferença.

A tecnologia atual, com todas as suas consequências, também é uma ótima amiga dessas crianças e adolescentes que crescem alienados do mundo de pensar, de sentir, de buscar ajuda com os mais velhos e experientes. Não conseguem mais parar quietos e focados num só tema. São muitos estímulos ao mesmo tempo.

A sociedade atual está muito presa no ter e deixou de lado o saber: saber conter, saber conversar, saber analisar, saber discernir, saber se é hora.
Isso sempre existiu na humanidade, apenas agora tem mais peso por causa da divulgação pela imprensa falada, escrita, televisada.

Aprendam Psicanálise e não acreditarão no número e na qualidade das informações que serão obtidas.

Estresse em crianças, bebês e fetos

Sabe-se hoje que o desenvolvimento de bebês e crianças é afetado principalmente pelo estresse.

Estudamos e falamos muito sobre bebês, mas só na parte física, médica: seu corpinho, como cuidar dele, a qual médico pediatra levar, como deve ser, de preferência, um parto, e assim por diante.
Mas são ainda pouco conhecidos os fatores emocionais que podem atrasar o desenvolvimento infantil.
Problemas emocionais podem causar estresse em fetos, recém-nascidos e crianças pequenas.

Podemos enumerar uma série deles, começando pela vida intra-uterina: um bebê precisa ser desejado, ter um lar estabilizado, com pai e mãe, segurança financeira, certeza de ter um seguro de saúde, que o emocional dos pais esteja equilibrado e que estes não briguem na frente dos filhos. Se houver alguma coisa a resolver, é preciso manter a calma.
Pesquisas feitas nos mostram que de cem crianças pesquisadas, noventa e seis viviam expostas a pelo menos uma situação de estresse, e que isso leva a um atraso mental que poderá ser menor ou maior dependendo do grau ou intensidade da situação.

Podemos citar o que prejudica e situações estressantes para um bebê: brigas entre a mãe e o pai, com ou sem agressão física; ter a família abandonada pelo pai; ter pouco contato com a mãe; ser cuidado só pela mãe (pais separados, morte do pai ou mães solteiras) e dormir na cama dos pais.
Quando já foi detectado um atraso, deve-se fazer uma imediata intervenção, como, por exemplo, transformar a hora do banho ou das refeições em momentos de proximidade com a criança, cheios de conversa e muita brincadeira.

Existe uma maneira certa de aprender a lidar de forma adequada com os problemas emocionais de bebês e crianças e mais atualmente, em uma abordagem “de ponta” com embriões e fetos, em sua vida intra-uterina.

Sabendo desses pormenores, mamães e papais poderão proporcionar um bem-estar maior e vida emocional saudável para seus rebentos.

JONIA RANALI

Você conhece a lenda do rito de passagem da juventude dos índios Cherokees?


“O pai leva o filho para a floresta durante o final da tarde, venda-lhe os olhos e deixa-o sozinho.

O filho se senta sozinho no topo de uma montanha toda a noite e não pode remover a venda até os raios do sol brilharem no dia seguinte. Ele não pode gritar por socorro para ninguém. Se ele passar a noite toda lá, será considerado um homem. Ele não pode contar a experiência aos outros meninos porque cada um deve tornar-se homem do seu próprio modo, enfrentando o medo do desconhecido.

O menino está naturalmente amedrontado. Ele pode ouvir toda espécie de barulho. Os animais selvagens podem, naturalmente, estar ao redor dele. Talvez alguns humanos possam feri-lo. Os insetos e cobras podem vir picá-lo. Ele pode estar com frio, fome e sede. O vento sopra a grama e a terra sacode os tocos, mas ele se senta estoicamente, nunca removendo a venda. Segundo os Cherokees, este é o único modo dele se tornar um homem.

Finalmente…
Após a noite horrível, o sol aparece e a venda é removida. Ele então descobre seu pai sentado na montanha perto dele. Ele estava a noite inteira protegendo seu filho do perigo”. Nós também nunca estamos sozinhos!
Mesmo quando não percebemos, sempre “alguém” está olhando para nós, ‘sentado ao nosso lado’. Quando os problemas vêm, tudo que temos a fazer é confiar que existe alguma coisa que está nos protegendo.

Mas quem? 
Vejam só, existe em nós um sistema de comunicação que nos vem através de nossa intuição. Simplesmente o que falta é acionar esse sistema. Eu vou lhe ensinar como: você precisará, com certeza estar calmo e sossegado, e dessa forma tente conectar-se com algo que existe dentro de você e que chama-se intuição. E pergunte à sua intuição o que deverá ser feito naquele momento de aflição, ou de indecisão, ou de muito sofrimento.

Por vezes a resposta não vem de imediato, e o mais acertado é fazermos a pergunta na hora de ir dormir. Com certeza, um pouco mais tarde, ou no dia seguinte, haverá em você uma resposta para a sua indagação. Ela vem como se fosse um pensamento seu, e por vezes, até nos perguntamos: “Como não pensei nisso antes?”.

É sua intuição, sua parte sábia, respondendo à sua indagação. Sem sabermos ela estará como o pai do pequeno índio velando por você, para que erre o menos possível na vida.
E evite tirar a sua venda antes do amanhecer…



Moral da história:
Apenas porque você não vê, não significa que não esteja protegido

O Xará

Este conto foi escrito pelo Dr. João Ranali, meu pai, um imortal, Membro da Academia Guarulhense de Letras. Eu acho que é o conto mais belo que ele escreveu, e não consigo le-lo sem chorar.

O xará

Viviam ao deus-dará. Perambulando pelo mundo sem pouso certo nem esperança de te-lo. Encontravam alento para os seus tristes dias, na caridade pública. Alimentavam-se das pitanças estendidas por mãos caridosas que se confrangiam com a presença daquele casal, sem estribos nem montaria que carregava no colo ora no colo da mãe, ora no do pai, uma criança linda como se fora um anjo. Carinha resplendendo um eterno sorriso, cabelos encaracolados, inocência distanciada das maldades do mundo. Quando o casal se acercava para pedir telheiro ou comida, os solicitados dirigiam seus olhares, não para os pais pedintes, mas para a criança que lhes fazia companhia.

E pela criança e não pelos pais, a côdea de pão, bem como o repouso em alguma edícula desprezada onde abrigavam os corpos martirizados pelo cansaço. Paupérrimos, eram, sem dúvida. Mal possuíam os andrajos que lhes cobriam as carnes desprovidas de gorduras, dada a deficiência da alimentação que conseguiam. Mas, ao lado dessa miserabilidade, tinham a riqueza do filho que amavam com intenso apego. Para ele, todos os desvelos. No inverno, despojavam-se das poucas roupas para cobrirem o menino, fortuna das suas almas, enlevo dos seus corações. Davam-lhe o melhor que o sobejo da mesa dos ricos lhes atirava; vestiam-no com o que de menos remendado e puído, arrebanhavam aqui e ali. Podia faltar-lhes de tudo, menos esse carinho pelo garotinho, benção maior das suas vidas.

• Eis que chega o Natal
Frio de mumificar os desprovidos de agasalhos nos países de rigoroso inverno, calor sufocante nas terras tropicais. E o casal, sem estrela guia para apontar-lhes o caminho, suando por todos os poros dos corpos esquálidos andando ao léu, foi bater, no dia consagrado à natividade, num povoado decadente. A maioria das casas feitas de taipa de sopapo com cobertura de palmas de buriti. Galinhas ciscavam pelas ruas estreitas e tortuosas; porcos fuçando à procura de raízes para saciar a fome. Nos quintais e nos roçados, raquíticas espigas de milho atestavam a pobreza da terra.

• Eis uma igrejinha!
Uma ermida, à garupa de um outeiro estava aberta. Alguns fiéis aprestavam os preparativos da missa de logo mais. Obter socorro de quem, se a vilota era tão carente, como necessitados de tudo eram os mulambentos recém-chegados. Atreveram-se a entrar. O sacristão atarefado em enfeitar o altar, enxotou-os. Ah! Se o padre Cirilo, de grande formação humanitária e coração perfeitamente adaptado à sagrada missão sacerdotal, soubesse desse ímpio procedimento. Por certo o sacristão iria receber um sermão de derrubar o topete do desalmado.

Onde se viu, na véspera do Natal, tratar com tanta crueza aqueles coitados, contrariando os ensinamentos de Jesus, voltados para os excluídos. Sorte do sacristão de estar o vigário na casa paroquial, a preparar a homilia que diria, logo mais no púlpito da modesta capela. Palavras, com toda certeza, contrastantes com a atitude de seu afoito auxiliar. Carregando o desapontamento daquela rejeição, o casal chegou a uma casa de razoável aspecto. Ousaram solicitar acolhida por uma noite. Atendidos por uma mulher que circunscrevia a sua obesidade num vestido ramado e com folga bastante para facilitar-lhe os movimentos, o chefe da família indagou em tom de súplica:

- A senhora, pelo amor de Deus, tem um lugarzinho de favor para abrigar a gente? Tamo de passagem e manhanzinha vamo simbora.

- Olhando para o menino que exibia um sorriso angelical, a resposta, num correspondente de amigável propósito, não podia ser outra:

- Meceis vão lá pro fundo do quintá. Bem ao lado do galinheiro tem um celeiro. Meceis se deitam na páia que há por lá e durmam com Deus.

A noite, límpida e estrelada, abafava. Revoluteavam as mariposas em torno dos poucos lampiões de querosene, precária iluminação do vilarejo.
De alguns casebres partiam, para quebrar a monotonia da noite silente, toques de tambores, apitos e estridentes gargalhadas, coisas de gente simples e golgazã, adequadas à data prestes a ser comemorada. Acomodados no paiol, a mãe, apertando no peito o corpinho do menino, contava-lhe com singeleza dos humildes, as peripécias do nascimento do Filho de Deus.

- Num lugá, dizia ela, tar e quar como este em que nóis estemo,t ambém de favor, se recolhero, José e Maria, pouco antes do santo fio deles nascê. Só que pra nóis farta o burrinho e a vaquinha, como si vê nos presépio.
Estafada como estava, começou a cochilar, o que a fez interromper a narrativa. E o casal, cansado pela canseira do dia, logo adormeceu. Mas o menino, matutando sobre a história que a mãe lhe contara, abrutamente interrompida, não conseguia conciliar o sono. Direcionado pela inocência e não sabendo dos obstáculos que tornam perigosos os caminhos, como que impelido por uma força estranha, deixou o celeiro onde os pais ressonavam a bom ressonar, e pôs-se a andar a esmo. Passou por gente modestamente vestida que, ruidosamente se dirigia à capela. Magotes de roceiros apressavam os passos para a missa do Galo.

De vez em quando era saudado por um bêbado que, de borracho às pampas, mal conseguia emitir palavras audíveis. Não se receava de nada que ia encontrando pelo caminho,e não se amedrontava diante da figuração fantasmagórica formada pelo arvoredo farfalhante. Nem o piar agourento de algum curiango vadio assustava-o.

Como que num abrir de cortinas,viu uma clareira destacar-se numa sobra de mata nativa, não muito distante da estrada. Um repuxo inesperado conduziu seus passos para aquele deslumbrante espetáculo de luz. Achegou-se e viu, sentado no tronco de uma árvore recém caída, um homem de longa túnica branca envolto numa auréola beatífica. Nada receou. Foi avançando rumo à aparicão.

• Encontro com Jesus
Já perto da imagem que o atraía, percebeu que o homem fazia-lhe sinais para que se aproximasse. O menino, num desembaraço comovedor e inusitado para a sua idade sem temor, foi chegando. Acedeu ao convite do iluminado que levantou-se para abraçá-lo. Tomou-o pelas mãos e sentou-o em seus joelhos. Os cabelos longos e negros, chegavam-lhe aos ombros, sombreando-lhe o semblante amigo e acolhedor. Seu falar era um embalo de amor, de fácil alcance para uma criança. Com doçura disse:

- Como você se chama?

- Jesus, respondeu o menino sem titubear.

- Que bom. Então somos xarás. Eu também me chamo Jesus.

O menino sorriu e abraçou aquele homem, para ele, há pouco, um desconhecido, que logo se fez amigo. Encorajado, o menino destramelou a língua. Aquele homem era diferente de todos os que conhecera até então, invariavelmente ríspidos, ao escorraçarem os pais quando lhes pediam comida e abrigo.

- Sabe, xará, posso chamá-lo assim?

- Claro,respondeu de pronto o Jesus homem ao Jesus menino.

- E o garoto começou a contar tudo o que o Jesus homem já sabia de sobra, e fingia ignorar os pormenores que o menino detalhava com desenvoltura: que os pais não tinham posses, nem um cantinho de seu para acomodar a família; que andavam a perambular pelo mundo; mas que apesar de tudo, eram bondosos com ele; deixavam, às vezes de comer o pouco que almas generosas lhes davam, para que ele não passasse fome; quando o frio era rigoroso, desgarravam-se de suas poucas roupas, para aquece-lo.

- Conversa entre xarás

- São muito bons, sabe, xará? Só que não tem sorte. Não arranjam emprego em nenhum lugar. E, sabe? Vontade para o trabalho, até que rude seja, eles tem de sobra. Mas, cadê a terra?

- Escuta aqui meu menino, você pode ser de grande ajuda para seus pais.Você gosta muito deles, pois não?

- Gosto e muito retrucou o Jesus menino.

- Então escuta bem o que vou lhe dizer. E faça tudo direitinho para as coisas darem certo.

- Tá bom, pode falar.

- Metendo os cotovelos nos joelhos, levou ambas as mãos ao rosto para não perder uma só palavra que dizia o homem iluminado.
Você vai dizer a seus pais que, daqui a alguns quilômetros desta estrada, a cujas margens estamos sentados, existe um convento.

-O que é um convento, xará?

-É uma grande casa onde alguns homens solitários, que todo mundo chama de frades, dedicam-se ao serviço de Deus. Lá eles rezam e cultivam os campos para suprirem as necessidades do convento. Os frades irão recebe-los. Mas, não deixe os seus pais falarem. Converse você mesmo com eles. Diga-lhes que um homem chamado Jesus, mandou você, que também é Jesus dizer que os seus pais gostariam de ter um chão para plantar e um casolo para morar. Nada mais do que isso.

- E eles vão atender a gente?

- Transmita-lhes as minhas palavras e tudo dará certo. Depois de haver assim falado, o homem que Jesus menino encontrou envolto numa auréola fulgurante, levantou-se, acarinhou o menino e desapareceu na escuridão.
Só então o menino deu-se conta do quanto se afastara do celeiro, onde não conseguia conciliar o sono. Urgia voltar para que os pais, ao acordarem, já que a madrugada não tardaria, não temessem pela sorte do filho. Resoluto, encheu-se de coragem e meteu-se a caminhar. O caminho a percorrer que lhe parecia tão distante começou a encurtar, à medida que andava.
Reconheceu em breve, a casa que os acolhera. Foi ao celeiro. Os pais ainda dormiam. Deitou-se, rememorando a façanha que vivera, e dormiu pesadamente, até ser despertado por uma sacudidela. Era a sua carinhosa mãe que o chamava.

-Vamo, fio, precisamo ir embora. Aproveitemo a boa vontade da dona da casa que vai dá inté um café pra gente. Precisamo aproveitá, por que num é sempre que se encontra gente de bom coração.

Ergueu-se, esfregou os olhos e fez uma carinha de quem punha em dúvida o que lhe acontecera durante a noite e começou a matutar: será que eu sonhei?

• Para o convento
- Que saí à toa do celeiro e dei com aquele homem bondoso que me disse que era meu xará e mandou que eu procurasse um convento que fica na beira da estrada? Ou é verdade isso que eu vivi e senti?

Despertou do seu cismar quando ouviu o pai determinar:

- Vamo vortá di donde nóis viemo. Num adianta tá batendo perna por aí.

- Não sinhô – levantou-se a voz do Jesus menino. Nóis vamo in frente, por que nunca se deve vortá pra donde a gente foi infeliz.O negócio é i in frente.

A disposição do garoto espantou o pai:

- Uai! Ele nunca foi de dá parpite, e agora tá querendo dá orde prá gente.-
Pelo sim pelo não, ele que sempre caminhara em vão, deu uma olhada de esguelha para a mulher, como que em busca de um conselho.

- Quem sabe, né? – sussurrou ela ao ouvido do marido. E vamo segui o rumo que ele está sugerindo.

- E partiram. Fresca a madrugada. Assanhada com o nascer do sol, a passarada abrilhantava o espetáculo da natureza, com suaves gorjeios na demanda de frutinhas silvestres das árvores que margeavam o caminho. O andar já extenuava quando vislumbraram na grimpa da montanha um austero casarão de pedra, cercado de vistosa plantação. Chegaram.

- Ofegantes, por íngreme a estrada que conduzia à sóbria edificação. De perto, parecia mais um castelo, com dois pavimentos, larga portada e janelões a demonstrarem severidade. Os forasteiros viram-se à frente de um portal de grandiosas proporções, com detalhes de esmerado acabamento. Na parte dianteira da pesada peça, uma aldrava destinada a chamar os habitantes do casarão. Bateram com firmeza. Demora pouca, abriu-a um frade jovial, rosto avermelhado e ventre denotando uma precoce protuberância. Deixou-os entrar.

- Louvado seja Deus. A que vêem os senhores?
E o Jesus menino, lembrando-se da recomendação do xará, sem titubear, soltou a fala:

- Posso falar sozinho com o senhor?

- Como queira, – respondeu o frade. E levou-o para uma sala contígua à da recepção, onde os pais ficaram à espera. Uma grande árvore de Natal enfeitava o cômodo, adequada à simplicidade monacal. Sem cerimônia, o Jesus menino foi logo desembuchando. Contou o encontro com o Jesus, seu homônimo. Estava ele iluminado como se todas as estrelas do céu tivessem se juntado para dar-lhe aquele fulgor. E transmitiu o recado que lhe fora recomendado.

- Sabe, seu frade, eu não sei se sonhei ou se tudo isso é verdade.
O bondoso religioso, que por sinal era o superior da Irmandade, afagando os cabelos do Jesus menino, soltou uma cautelosa gargalhada e disse:

- É tudo verdade, meu menino. O convento está precisando de gente como vocês. Não mais precisarão bater pernas por este mundo cheio de desigualdades e injustiças.

- Apanhou o menino pela mão e conduziu-o até uma janela que dava para um campo cultivado na parte posterior do convento e, apontando para uma casota, envolta na mansidão do arvoredo, ordenou que a ocupassem de imediato.

- Amanhã, porque hoje à noite comemoraremos o nascimento de Jesus Cristo, o teu xará, determinaremos qual o trabalho de vocês no convento.

– Sem mais o que dizer, encaminhou-os para o lar que acabavam de ganhar.
Retornando para o interior da casa dos religiosos, o frade superior, certo de que fora o Jesus da Cristandade quem aconselhara e guiara os passos do seu pequenino xará, ameigou com as mãos o Crucifixo que pendia de um rosário de grossas contas que trazia preso ao hábito, persignou-se como que ungido por um sopro divino e exclamou, lábios a tremerem:

SENHOR, SEJA FEITA A VOSSA VONTADE