Instituto Jonia Ranali

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sábado, 16 de fevereiro de 2013

A ÚLTIMA DO TOTÓ



               Reboam por campos, montanhas, praias e desertos os gritos dos excluídos do direito de um viver digno, sem encontrarem ouvidos que acolham essas indagações para uma resposta resolutiva: por que tantos, atentos à divisa bíblica – ganharás o teu pão com o suor do teu rosto – ao procurarem trabalho rentável, vêm as portas fecharem-se? Por que os desejosos de abrigar os seus amores e seus corpos esmigalhados pelo infortúnio não conseguem sequer um casinholo, mesma que erguido ao desconforto? Por que garotos em plena formação, apinham-se nos becos sórdidos marcados pela dissolução dos costumes, para a pilhagem e perversões insólitas? Por que gurias, no viço do crescimento, entregam os corpos à sanha dos sádicos rebuscadores de prazeres descompromissados e pecaminosos?
            Pois foi nesse torvelinho de perguntas sem respostas que o Totó veio ao mundo. Menino nascido num telheiro lindeiro a um riacho, ninho predileto de miasmas transmissores de toda sorte de enfermidades, onde os pais viviam, emborcados em bebedeiras, numa vadiagem sem fim. Da infância à adolescência, a sua vida foi um rosário de maldades. Menino que só sobreviveu porque estava predestinado a um eito de sofrimentos sem paradeiro. Sem pão para comer e o corpinho crivado de pancadas que lhe desabavam no lombo, pelas mãos cruéis do pai, quando as esmolas recolhidas eram poucas para a satisfação das esbórnias paternas. Maldades que nunca contaram com a aprovação materna. Sempre que possível, a coitada e submissa mulher do malandro evitava a judiaria. E, quando o marido, implacável surrador se afastava, recolhia ela as lágrimas do Totó, enxugando-as nas dobras do vestido quase sempre sujo e malcheiroso. Do pai tinha ódio pela truculência com que o tratava, da mãe piedade pela vida que era obrigada a suportar.
Nesse emaranhado de desditas, caminhou lépido para a criminalidade. Meteu-se numa súcia de gatunos. Conheceu os malefícios da perversão sexual, estuprando garotas de rua como ele, transformando-as em prematuras mães solteiras. Seviciou gente que sequestrava. Serviu de esparros a malandros calejados que, para escapar dos rigores da lei,acoitavam-se na impunidade do menor, que era ele, o pobre Totó. Chegou ao ápice da perversidade. Cansado de dividir o bolo da ladroagem porque nas partilhas so surrupiado, os chefões levavam quase tudo, para ele restando apenas migalhas. Já se considerava um curtido agente do mal, capaz de agir por conta própria. Passou a assaltar a mão armada. Matava impiedosamente. Deliciava-se com o sofrimento dos que torturava. Nenhum vislumbre de decência ou piedade resplandecia naquela alma nodelada para o mal. Contender com ele para que seguisse o bom caminho, era perda de tempo.
            Com a ausência do filho, que esmolava para suprir as necessidades da casa, o pai, despido de pudor, e por ser um vagabundo habitual, obrigou a mulher a prostituir-se. A pobre mulher obedecia o marido na base da pancadaria, e embora lhe repugnasse o meretrício, a ele entregava-se para não ser massacrada a  pauladas. Ainda restava-lhe uma talisca de decência. Vendia o corpo,mas fazia questão de mostrar-se pouco. Andava sempre por ruas escuras e silentes.
            Em conluio com velho companheiro de atrocidades, Totó ajustou a assalto a uma fábrica. Tudo lhes era propício: o local sem iluminação, uma perua furtada para servir de transporte e, por ser material de fácil venda, já contavam com um receptador certo a quem entregá-lo. Costeando um muro, perceberam um vulto que se aproximava. Viram que era uma mulher. Logo a perversão tomou conta dos dois patifes.
             - Vamos bimbar a vadia, convidou o Totó.
             - Topo, - respondeu o comparsa.
          E, quando a pobre mulher menos esperava, sobre ela saltaram os dois homens. Dominada e estirada no chão, o Totó foi o primeiro a possuí-la. Quando na sequência, o companheiro tentou cevar seus instintos sádicos no corpo da pobre mulher, esta, num assomo de revolta, resistiu.
Debatia-se ferozmente para escapulir das garras do segundo aproveitador do seu corpo ofegante e indefeso. Totó, pensamento preso ao projetado assalto à fábrica, sacou do revólver, pediu ao companheiro que se afastasse da mulher e crivou-a de balas. Numa voz firme, mas com detonações de tremura, determinou ao comparsa
 - Acende a lanterna e mete ela em cima da putona, pra gente vê a cada da fera.
Assim que o facho de luz espalhou-se pelo rosto da vítima, um grito angustioso reboou no silêncio da noite: - Manhê, ó manhê.
O Totó havia ultrapassado o limite da sua nefanda vida criminosa.
Meteu o revólver na cabeça, puxou o gatilho e caiu pesadamente sobre o corpo da mãe.

DOUTOR JOÃO RANALI – DIGNÍSSIMO PATRONO DA ACADEMIA DE LETRAS (MEU PAI)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O CASO MAIS LINDO QUE JÁ TIVE: "SÓ AMOR BASTA"




Existem duas coisas que sempre me fazem chorar: uma delas é todas as vezes que releio um artigo de meu pai, "Xará" que está em meu blog e a outra é quando me lembro de um paciente que nunca conheci, e cujo caso aqui contarei hoje, com nomes fictícios, é claro.
Eu possuía na época uma paciente que trabalhava em uma Empresa. Um colega muito chegado estava junto com a esposa passando por problemas com o filho mais velho, e depois dela me contar a história familiar, sugeri que os pais viessem ao meu consultório.
Chegaram no horário combinado e começaram a contar a história deles e dos filhos: Dora era casada e teve o primeiro filho, Tiago, e o pai do menino foi embora logo em seguida, e nunca mais ela soube dele.
Dora criou o filho e um dia quando ele estava maiorzinho, conheceu Claudio e passaram a viver juntos.
Daí para a frente, Tiago passou realmente a ter um pai, pois Claudio gostava muito do garoto e o tratava realmente como filho.
Estando Tiago com 12 anos, sua mãe Dora engravidou.
Adendo: Dora e Claudio eram muito simples financeiramente e ambos precisavam trabalhar.
A partir do momento em que Tiago soube da gravidez da mãe, começou a ter estranhos sintomas: caía ao chão, puxava o lado direito do corpo, entortava a boca e espumava um pouco.
O casal já havia levado Tiago a uma quantidade enorme de médicos, me trouxeram um calhamaço de dois dedos de exames feitos e cada um tinha uma opinião diferente.
Vários remédios haviam sido experimentados, sem nenhum efeito.
E, como era a vida cotidiana do casal?
Levantavam pela manhã, deixavam a nenê que já havia nascido aos cuidados de uma vizinha, depois Tiago na escola, e ambos iam trabalhar.
Tiago voltava só da escola, almoçava sozinho, tomava seus remédios e ficava também só pelo resto da tarde.
Quando saiam de seus trabalhos, Claudio pegava Dora, voltavam para casa, apanhvam a menininha na casa da vizinha, e como não podiam pagar uma empregada, revesavam os trabalhos da casa e para com a nenê, até a hora de ir dormir.
E o Tiago? Continuava sózinho vendo toda essa movimentação. E, percebendo que a nenê tem toda a atenção, e ele? Nada. Por que? Por já ter 12 anos? Mas sente-se muito carente e só. E... tem crises para chamar a atenção dos pais. Emocional é assim: quando Tiago caía e se  machucava, os pais eram obrigados a largar a pequenina e os trabalhos domésticos e dele cuidar.
Percebo tudo isso enquanto psicanalista.
E depois de me contar toda a história, ficam ansiosos me olhando.

Segura do que lhes vou falar e orientar, inicio:
"Vou dar um remédio ao Tiago e ele vai ficar bom". Os dois ficaram me olhando espantados, esperando uma nova receita de algum outro remédio. E eu continuo:
"Esse remédio chama-se AMOR.
Vamos mudar toda a rotina de vida de vocês: o Cláudio tem disponibilidade de ir almoçar com o Tiago, ao invés de almoçar em sua Empresa, então faça isso. Vá buscá-lo na escola e almoce com ele. E, quando ambos sairem do trabalho ao invés de irem direto buscar a nenê na vizinha, vão para casa, conversem com Tiago, deem a ele muito amor, carinho, peguem-no no colo, mesmo ele tendo já 12 anos, digam que o amam, que ele é o primeiro filhinho de vocês, jantem com ele, e depois de tudo isso feito, um de vocês vai buscar a nenê, o outro fica com Tiago e o que ficar com ele, conte a ele que tem muita tarefa em casa a fazer, e peça a ajuda dele nesse mistér e mostre o quanto a colaboração dele é importante. Falem que vocês são três adultos, cuidando de uma bebezinha que é dele e que ele também deve cuidar dela.
Ensinem-no a trocar fraldinhas, a dar uma mamadeirinha de suco e a brincar com ela. Mostrem o quanto ela gosta dele e como sorri quando ele conversa com ela". E, por aí fui a fora mostrando ao casal as novas atitudes a serem tomadas.
Claudio e Dora, apesar de muito simples na matéria, eram muito esclarecidos espiritualmente e desejosos da cura do filho, que viam sofrer e se machucar, dia a dia.
E, procederam exatamente como lhes orientei.
Na outra semana, quando voltaram para a sessão, os dois olharam para mim com uma grande sensação de amor , de admiração e de gratidão nos olhos e me disseram que haviam feito exatamente o que lhes recomendei e que Tiago não havia tido mais nenhuma queda ou sintoma do que acontecia antes. Contaram-me que quando Claudio foi buscar Tiago na escola, no primeiro dia, este abriu um largo sorriso, pegou o pai pela mão e foi mostrá-lo aos colegas, encantado, surpreso, feliz e radiante.
E, pela noite quando os pais chegaram em casa sem a bebê, ele ficou pasmo, correspondeu ao carinho a ele dedicado e depois ajudou a cuidar da irmãzinha e ao pai no lavar da louça e da roupa. E, ficou encantado de ver que podia tocar na garotinha, dela cuidar também e que era muito amado por mamãe e papai.
Bem, nem preciso dizer que eles não mais voltaram às sessões, pois eu lhes disse que continuassem agindo dessa forma e se alguma coisa novamente desse errado que de novo me procurassem.
Tiago hojé já deve ser adulto e talvez já tenha até casado e esteja com filhos, MAS ESTE É O CASO QUE JAMAIS ESQUECEREI EM SEUS MÍNIMOS DETALHES E ESTA TAMBÉM É A RAZÃO PELA QUAL AMO TANTO A CIÊNCIA QUE ESCOLHI PARA COM ELA TRABALHAR, E QUE VOU CONTINUAR AMANDO SEMPRE, POIS É A CIÊNCIA DAS CAUSAS.

JONIA RANALI - PSICANALISTA